Proibição das bets: elas fazem mal à sociedade? O que os dados revelam
Resposta curta: pelos dados, sim. Em 2025, os brasileiros perderam R$ 36,9 bilhões em apostas, cerca de R$ 1.476 por apostador. O peso é desigual: nas classes D e E, as bets consomem quase 4 vezes mais do orçamento do que na classe A. O custo social estimado, de R$ 38,8 bilhões por ano, é cerca de 4 vezes tudo o que o setor pagou em impostos federais. E a procura por tratamento no SUS cresceu 140% entre 2018 e 2025.
O que mudou com a proibição?
Em 25 de setembro de 2026, o governo federal publicou uma medida provisória que proíbe a exploração, a oferta e a publicidade das bets, incluindo apostas esportivas e cassinos online. O argumento central é de saúde pública.
Pelo calendário, os novos depósitos acabaram na hora, o saque voluntário vai até 5 de outubro e os sites saem do ar a partir de 6 de outubro. A medida ainda precisa ser aprovada pelo Congresso para se tornar definitiva.
Quanto isso representa na economia?
O PIB brasileiro em 2025 foi de R$ 12,7 trilhões. Dividindo o valor depositado e o valor retido pelas empresas por esse total, chegamos a 1,7% e 0,3% do PIB. Um cuidado: os depósitos incluem dinheiro que volta como prêmio e é apostado de novo, então é contado mais de uma vez. Por isso, o número mais preciso é o 0,3%, que mostra a perda real dos apostadores. O número de apostadores vem do Ministério da Fazenda.
A nossa conta por apostador bate com um estudo independente: a LCA Consultoria calculou um gasto líquido médio de R$ 122 por mês por apostador.
Atenção: esses números cobrem só as bets autorizadas. Estimativas do setor indicam que os sites clandestinos seriam de 41% a 51% do mercado total. Ou seja, o dano real é maior.
As bets pesam mais para quem tem menos dinheiro?
Sim. Quem tem mais renda aposta valores maiores em reais, mas quem tem menos perde uma fatia muito maior do orçamento.
Maior que o lazer, perto da comida
Os números são de uma projeção da PwC Strategy& com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE e em dados do Banco Central.
O recorte do Bolsa Família
Os dados são do Banco Central: cerca de 5 milhões de beneficiários enviaram R$ 3 bilhões via Pix para bets em um único mês. Os R$ 100 típicos equivalem a 15% do benefício médio. Os números valem para quem apostou, não para todos os beneficiários.
Qual foi o impacto no comércio?
Dinheiro apostado é dinheiro que deixa de ir para o mercado, a farmácia e a loja do bairro. A CNC estima que o varejo deixou de faturar R$ 103 bilhões em 2024 por causa do dinheiro das famílias desviado para as bets. O corte no orçamento doméstico vem da pesquisa Pulso Apostas, da Hibou (agosto de 2026).
As bets aumentaram o endividamento?
Qual é o impacto das bets na saúde mental?
O transtorno do jogo é reconhecido como doença pela OMS (CID-11, código 6C50). Os números do LENAD III, da Unifesp:
Quanto do dinheiro das bets chegou à saúde pública?
Quase nada. O IEPS estima que as bets geram um custo social de R$ 38,8 bilhões por ano. Só a saúde responde por R$ 30,6 bilhões:
Agora compare com o que entrou. A Receita Federal arrecadou R$ 8,94 bilhões com as bets em 2025. O principal imposto das bets, de 12% sobre o faturamento das empresas, é dividido por lei entre várias áreas: esporte fica com 36%, turismo com 28% e educação com 10%. A saúde recebe só 1%. Em 2025, esse imposto somou R$ 4,5 bilhões, e a saúde ficou com cerca de R$ 45,7 milhões (dossiê do IEPS). Milhões, não bilhões.
O setor gerou empregos?
Muito poucos. Em 2024, o setor tinha só 1.144 empregos formais ativos, com 60 empregadores, segundo dados da RAIS compilados pelo IEPS.
Conclusão: o que os números mostram?
Pelos dados, o custo social das bets é cerca de 4 vezes tudo o que o setor pagou em impostos federais. O peso recai de forma desproporcional sobre as famílias de menor renda, a saúde pública quase não recebeu recursos, e o setor gerou pouquíssimos empregos para o dinheiro que movimentou.
A proibição resolve parte do problema, mas especialistas alertam para a migração para sites clandestinos e para a necessidade de ampliar o tratamento no SUS.
Perguntas frequentes
As bets foram proibidas no Brasil?
Sim, por medida provisória publicada em 25 de setembro de 2026. Ela precisa ser aprovada pelo Congresso para se tornar lei definitiva.
Quanto os brasileiros perderam com bets em 2025?
Cerca de R$ 36,9 bilhões, a diferença entre os R$ 220,6 bilhões depositados e os R$ 183,7 bilhões devolvidos em prêmios. Isso equivale a 0,3% do PIB e a cerca de R$ 1.476 por apostador.
As bets afetam mais os pobres ou os ricos?
Os mais ricos apostam valores maiores, mas os mais pobres perdem uma fatia maior da renda. Em 2023, as bets consumiam 1,38% do orçamento das classes D e E, contra 0,36% na classe A.
Quanto do dinheiro das bets foi para o SUS?
Por lei, a saúde recebe 1% do principal imposto pago pelas bets. Em 2025, foram cerca de R$ 45,7 milhões, de um total de R$ 4,5 bilhões distribuídos. O custo das bets na saúde é estimado em R$ 30,6 bilhões por ano.
Vício em apostas é doença?
Sim. O transtorno do jogo está na CID-11 da OMS (código 6C50). No Brasil, 1,4 milhão de pessoas têm o diagnóstico, e o tratamento é gratuito no SUS, pelos CAPS.
Metodologia: como fizemos as contas
Os números marcados com cálculo dottie são contas simples feitas a partir de dados oficiais:
| Indicador | Conta |
|---|---|
| 1,7% do PIB depositado | R$ 220,6 bilhões ÷ R$ 12,7 trilhões |
| 0,3% do PIB retido | R$ 36,9 bilhões ÷ R$ 12,7 trilhões |
| R$ 1.476 por apostador | R$ 36,9 bilhões ÷ 25 milhões de apostadores |
| ≈ 3.900 atendimentos no SUS em 2025 | 1.951 (1º semestre) × 2 |
| R$ 33 por pessoa diagnosticada | R$ 45,7 milhões ÷ 1,4 milhão |
| 35 vezes menos empregos que o Magalu | 40.000 ÷ 1.144 |
| Custo social ≈ 4 vezes os impostos | R$ 38,8 bilhões ÷ R$ 8,94 bilhões |
Dados de anos diferentes estão sempre identificados. Pesquisas de institutos distintos usam metodologias próprias e não devem ser somadas entre si.
- Agência Brasil: medida provisória que proíbe as bets (set/2026)
- Exame: calendário da proibição (set/2026)
- UOL: dados da Fazenda e pesquisa Hibou (set/2026)
- iGaming Business: dados da Fazenda e mercado ilegal (ago/2026)
- IBGE: PIB de 2025
- Câmara dos Deputados: dados da Fazenda e da Saúde (mai/2026)
- Poder360: CNC e LCA Consultoria (abr/2026)
- PwC Strategy&: o impacto das apostas esportivas no consumo
- Folhapress: relatório Santander por classe social (out/2024)
- Diário do Nordeste: dados do Banco Central sobre Pix e Bolsa Família (set/2024)
- O Povo: Bolsa Família e bets, nota técnica do Banco Central (set/2024)
- Intercept Brasil: Bolsa Família e bets (mai/2026)
- Metrópoles: perfil de renda dos apostadores, CNC (abr/2026)
- Gazeta do Povo: CNC, perdas de R$ 103 bilhões ao varejo em 2024
- B3 Bora Investir: pesquisa Serasa
- Gazeta do Povo: pesquisa ANBIMA e alertas sobre as bets (set/2026)
- Diário do Grande ABC: LENAD III, Unifesp
- CFF: atendimentos no SUS de 2023 a 2025 (dez/2025)
- Costa Norte: Ministério da Saúde, alta de 140% (set/2026)
- DCM: autoexclusão e atendimentos no SUS (set/2026)
- ANF: risco de suicídio citado pela OMS (set/2026)
- Viva: estudo do IEPS, custo de R$ 38,8 bilhões
- O Cafezinho: dossiê do IEPS, repasse à saúde em 2025 (set/2026)
- Câmara dos Deputados: divisão legal da arrecadação das bets
- O Antagonista: arrecadação da Receita Federal com bets (set/2026)
- Outras Palavras: empregos formais no setor (RAIS/IEPS)
- Metrópoles: receita do Magalu em 2025
- Baguete: número de funcionários do Magalu (jul/2026)
- DCM: o que falta após o fim das bets (set/2026)
Um número isolado engana. Cruzado, ele explica.
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